A história por trás de João e o Pé de Feijão
Que idade tem João e o Pé de Feijão? A verdadeira história do folclore, de uma paródia de 1734 a Joseph Jacobs, e um conto talvez com 5000 anos.

De certeza que a sabe de cor. Um menino troca a vaca da família por um punhado de feijões, a mãe, desesperada, atira-os pela janela, e de manhã um caule verde já trepou para lá das nuvens. Lá no alto esperam um castelo, um gigante, uma gansa que põe ovos de ouro e o célebre «fim fau fim fum». Parece um conto que sempre existiu. E o mais surpreendente é que isso quase corresponde à verdade.
Mais antigo do que quase tudo o que já leu
O primeiro João e o Pé de Feijão impresso é mais recente do que se julga. Surgiu em 1734, numa estranha pequena paródia intitulada «The Story of Jack Spriggins and the Enchanted Bean», que, na verdade, mais troçava das histórias de magia do que as celebrava. A versão que deu forma àquela que hoje conhecemos veio mais tarde, em 1807, quando Benjamin Tabart publicou «The History of Jack and the Bean-Stalk» e a moldou numa clara lição de moral.
Mas a história escrita é apenas a ponta do pé de feijão. Os folcloristas que estudam o modo como os contos viajam acreditam que a aventura do João é muito, muito mais antiga do que qualquer livro. Em 2016, dois investigadores, Sara Graça da Silva e Jamshid Tehrani, pegaram nos métodos de árvore genealógica que os biólogos usam para seguir os genes e aplicaram-nos aos contos populares. A descoberta, publicada na Royal Society Open Science, foi assombrosa: alguns destes contos remontam ao tempo em que as línguas indo-europeias se separaram pela primeira vez, há cerca de 5000 anos. João e o Pé de Feijão era um deles. O menino e o gigante poderão ser mais antigos do que as pirâmides.

O conto de mil rostos
Os estudiosos não arrumam a história sob a etiqueta «João». Arrumam-na sob um número: o tipo de conto ATU 328, «O Rapaz que Roubou o Tesouro do Ogre». Esse rótulo árido esconde algo encantador. Quer dizer que a mesma armação de história, um pequeno herói que sobe até à casa de um gigante e lhe leva os tesouros, reaparece vezes sem conta de cultura em cultura, com outros nomes e outros prémios roubados.
No mundo de língua inglesa, o próprio João deu origem a uma família inteira de histórias. Os «contos do João» seguem um mesmo rapaz alegre e arguto ao longo de dezenas de aventuras, o filho mais novo que vence por ser corajoso e esperto, e não pela força. O João do pé de feijão é apenas o membro mais célebre de um clã muito vasto.

Como nasceu a versão que lemos
A história que hoje lemos em voz alta deve a sua forma a um homem. Em 1890, o folclorista Joseph Jacobs publicou «Jack and the Beanstalk» na sua coletânea English Fairy Tales. Jacobs despiu de propósito a pesada moralização que Tabart lhe acrescentara, à procura de algo mais próximo do modo como o conto soava de facto quando se contava à beira da lareira. Daí que a sua versão seja viva e um pouco traquina, e seja também a que mais vezes se reedita hoje.
Assim, a história para dormir que tem nas mãos é feita de camadas: um conto oral mais antigo do que a escrita, fixado em letra de forma em 1734, remodelado em 1807 e com voz moderna em 1890. Sempre que a lê, torna-se o elo mais recente de uma corrente com milhares de anos.
Porque é que os feijões mágicos continuam a crescer
O que terá esta história para ter sobrevivido a cinco milénios de repetição? Provavelmente as mesmas coisas que o seu filho adora esta noite. Alguém pequenino diante de algo descomunal. Uma planta impossível que transforma um dia difícil numa aventura. Um tesouro que vale a subida, e a descida em segurança. Esses sentimentos não envelhecem. É exatamente por isso que os contos populares duram mais do que os impérios.
O Dreamtime mantém viva essa longa corrente, com suavidade, ao fim do dia. Pode trepar o famoso caule na nossa serena recriação de Jack and the Beanstalk e conhecer depois outros contos maravilhosos que correram mundo: o pintor bondoso e esperto cujo pincel dá vida aos desenhos em The Magic Paintbrush, a ave luminosa no coração de uma demanda russa em The Firebird, e a criança nascida da lua, no mais antigo conto que sobreviveu no Japão, em Princess Kaguya, e um casaco trocado por pura astúcia na estepe cazaque em Aldar Kose's Magic Coat.
Leia um esta noite, narrado e ilustrado, com a lentidão certa para os olhos pequeninos começarem a pesar. Estará a fazer o que as pessoas fazem há milhares de anos: passar uma história muito antiga a alguém acabado de chegar.
Fontes
- Jack and the Beanstalk: paródia de Jack Spriggins de 1734, Tabart 1807, Jacobs 1890, tipo de conto ATU 328 (Wikipedia)
- da Silva e Tehrani, alguns contos de fadas remontam a cerca de 5000 anos (Royal Society Open Science, 2016), noticiado pela Phys.org
- Alguns contos de fadas poderão ter 6000 anos, cobertura do estudo de da Silva e Tehrani (CBS News, 2016)

